lunes, 13 de mayo de 2013

Glecy Fagundes y Alberto Sánchez, pedagogos bilingües

La lengua portuguesa, nos llega desde lo más hondo de Carabanchel.

Meu nome é Isadora, sou brasileira e dentro de pouco mais de sete meses completarei quarenta anos. Até agora obtive da vida tudo aquilo que razoavelmente se pode esperar dela. Tive uma infância feliz, uma adolescência moderadamente problemática, uma juventude convencionalmente rebelde e agora alcancei a maturidade estável, o sonho dos justos, ou melhor, marido, trabalho e filhos. Para mim, o tempo já pode decorrer na segurança do bem estar, do imutável bem estar que proporciona saber que um dia perfeito será seguido por uma sucessão de dias perfeitos. Nunca havia tido um desequilíbrio emocional em minha vida. Em cada momento fiz o que correspondia e o resultado foi sempre o esperado. Não sofri a angústia, nem a dor, nem a necessidade. Não sofri. Até as duas semanas atrás, de fato, não havia sofrido tampouco a perda de nada significativo para mim.  Foi então que senti pela primeira vez em minha vida a perda de algo com significado, de algo que me importava. Perdi a meu primeiro familiar, minha avó. Ninguém da família pode dizer que tenha sido uma surpresa. Noventa e três anos, sem ter nenhuma doença diagnosticada, dão para deixar um espaço à dúvida sobre o que pudesse acontecer cada dia ao amanhecer, ou ao anoitecer, ou em qualquer instante. Em definitivo, teve lugar a consequência lógica de todo um processo vital. O resultado mesmo da vida, e ao que nos conduz, à morte. Todos da família sentimos esse acontecimento. Meu pai e meu tio, homens maduros, com os cabelos embranquecidos, se sentiram órfãos pela primeira vez em suas vidas. Todos prefeririam seguir com ela ao lado, mas todos sabem da impossibilidade de cumprir esse desejo.
A caixa mágica
Seus últimos dias viveu na Espanha, ao lado de seu segundo marido e ali estivemos para as últimas despedidas. Quando espalhávamos suas cinzas em um bosque de árvores amarelecidas pelos primeiros ares gelados do final de outono, me surpreendeu comprovar as poucas lágrimas que correram. Não houve explosões de dor incontrolável, nem tristezas inconsoláveis. Pareceu-me perceber, e pode que isso seja tão somente uma projeção de meus pensamentos, um sentimento generalizado de bem estar, de concordância com a vida que minha avó havia levado. Minha avó não sofria. Nunca a vi sofrer. De fato minha avó era a felicidade feita carne. A felicidade, em algumas ocasiões, parecia haver sido inventada por ela. Sempre soube que minha avó havia levado a vida que escolhera levar e sempre comprovei que isso a fazia extremamente feliz. Porém, nunca compreendi os detalhes. Pelo que me contaram meus pais, meu tio, familiares, amigos, minha avó (ainda não disse seu nome) havia tomado no decorrer da vida muitas decisões, umas acertadas, outras errôneas e outras, simplesmente desnecessárias.
Quando chegou aos sessenta anos fez uma nova escolha, não sei se a mais importante ou a mais espetacular de sua vida. E desde então, tudo tomou novo rumo. Encontro-me ainda na casa em que ela viveu seus dias mais felizes e há duas semanas estou revolvendo suas coisas, seus papéis, em busca de aprofundar-me em sua história desde essa época. Este texto é só uma conjectura sobre como minha avó deu forma ao seu destino. Minha avó se chamava Claudia e a ela dedico estas reflexões. Digo reflexões, onde deveria dizer perguntas, que me surgem ao ler um maço de cartas e um texto inacabado. Tudo isso encontrei em uma caixa. Bom, era algo mais que uma caixa comum. Tratava-se de uma peça de madeira, finamente trabalhada, que ela havia comprado em Marrocos, quando ali esteve com seu segundo marido.  Estava construída com encaixes de madeiras de diferentes tonalidades, e a princípio não sabia por onde abri-la. Parecia uma caixa mágica. Fui tateando suas laterais e aos poucos percebi que algumas das peças se moviam, deslizando para os lados. Assim, comecei por tirar a primeira peça, depois outra e mais outra e outra ainda, até que surgiu uma pequena fechadura encravada na madeira interior. Mas faltava encontrar a chave. Descobri que faltava deslizar uma última peça e finalmente surgiu um orifício onde estava escondida uma pequenina chave, com a qual pude abrir aquele tesouro. Fiquei perplexa ao encontrar um maço gordo de cartas com selos da Espanha e um bloco de anotações, onde reconheci a letra de minha avó. Avidamente, comecei a ler o que ela havia escrito, e parecia ouvir sua voz me contando: “Toda a minha vida desejei viajar. Isso sempre foi para mim como uma promessa de vidas fantasiosas, uma possibilidade de superar o presente. Já viajei bastante até agora, conheci lugares importantes do Brasil e alguns do exterior. Agora que estou chegando aos sessenta, depois de ter vivido um casamento tumultuado por mais de trinta anos, culminado por um divórcio, e gratificada por ter dois filhos já independentes e uma neta maravilhosa, todavia quero voar mais alto. Com os frutos do meu trabalho, vou finalmente conhecer a Europa, sonho antigo ainda não concretizado (...).” “Deixei Lisboa, minha porta de entrada ao Velho Mundo, com o coração em pedaços. Fiz questão de começar por ali porque, além da importância histórica que é Portugal para uma brasileira, esperava encontrar-me com um amigo de internet, com quem trocava ideias já há bastante tempo. Confesso que estava iludida com um possível romance português, que não cairia nada mal. Enfim, as coisas não caminharam como eu previa e por esse motivo, saí de Lisboa com um gosto amargo de decepção na boca. Foi com esse mesmo sabor amargo que entrei em Madri, mas disposta a virar o jogo (...).” No fim da primeira tarde em Madri, acerquei-me ao balcão do quarto de hotel para acender um cigarro, e em seguida observei que em um apartamento de frente havia um homem andando pela sala. Nada de extraordinário nisso, salvo que ele estava completamente despido e exibia uma estampa digna de ser observada: moreno, cabelos longos amarrados atrás, tipo másculo, aparentando ser bem mais jovem que eu. Passados alguns minutos, ele se aproximou da janela para acender um cigarro também e nossos olhares se cruzaram. Imediatamente me senti recompensada pela decepção sofrida em Portugal e pensei comigo mesma: Por que não me divertir um pouco com a nova situação? Afinal, ficaria ali somente dois dias, que haveria de mal? Instintivamente fiz menção de me despir também, talvez num gesto solidário, e comecei a sacar as primeiras peças (...) “Na noite seguinte, comunicamo-nos por gestos através das janelas e marcamos um encontro na porta do hotel. Na hora marcada ele se aproximou de mim com um largo sorriso. Não sei bem descrever a emoção que senti ao ler esse relato de minha avó, do qual transcrevi apenas alguns trechos. Em princípio fiquei chocada, porque fazia dela outra imagem, mas aos poucos, fui percebendo que dentro dessa pessoa tão querida para mim, havia mais coisas. Fui percebendo pelas leituras que ela era ainda uma mulher cheia de sonhos e de erotismo, mesmo com a idade que possuía. Passei dias lendo as cartas que lhe enviara seu marido, antes de viverem juntos e depois, cada vez que ela ia ao Brasil resolver assuntos pendentes. Entre tantas palavras de amor e demonstrações de carinho e desejo incontido, encontrei duas cartas escritas em terceira pessoa. Eram textos nos quais ele descrevia, de maneira lírica, o primeiro encontro entre os dois, creio que pelo fato de ter sido tão marcante para ambos. Por esse motivo transcrevo trechos dessas cartas. “Se conheceram de maneira inaudita. Melhor dizendo, não se conheceram, estabeleceram contato visual. Parecia a aproximação de dois mundos. O acontecimento inicial, pois não se pode dar outro nome ao que ocorreu, foi algo fortuito, carnal. Duas pessoas que se miram e se excitam mutuamente... Ao dia seguinte os dois tinham a mesma curiosidade. Continuaria aquilo? De que forma? Fazendo gestos rápidos com as mãos marcaram um encontro na rua, território neutro. Depois de se exibirem a distância de algumas dezenas de metros, se queriam ver a distância de centímetros e comprovar o que sucederia nesse espaço. Na medida em que se aproximavam, desataram ambos a rir. O motivo do riso não estava claro, mas os dois percebiam que a situação era causa suficiente para alegrar-se (...).” “Na primeira conversa nenhum entendeu muito bem o que dizia o outro. Rapidamente lhes ocorreu um plano bem simples, pois os dois tinham na cabeça as mesmas perguntas: E agora? Que faço eu? Os dois tinham a mesma curiosidade por conhecer ao outro. Caminhar um pouco, tomar uma bebida, falar, falar, falar. Queriam descobrir através da conversa as chaves que lhes haviam levado até ali. Ao mesmo tempo os corpos voltavam a estremecer de novo. Os corpos que se haviam exibido começavam a ter uma curiosidade mútua. Perguntavam-se instintivamente pelo tato, o perfume, o gosto. Como seria o contato com o outro? Mas não se roçaram. “Nenhum dos dois queria iniciar demasiadamente rápido um movimento que pudesse molestar ao outro”.
Assim terminava uma das cartas. Ao ler estas coisas, é inevitável pensar: Por que todos os homens não são iguais? Que mulher não gostaria de receber cartas como estas? Que terei que fazer eu para ter esse privilégio? Agora entendo melhor porque ela sempre falava dele com encantamento na  voz e um brilho especial nos olhos. Se me permitem, transcrevo a culminância daquele encontro, também descrita por ele, em outra carta. “O momento em que ele colocou seu braço sobre os ombros dela foi  mágico. Haviam esperado por esse contato todo o tempo em que estiveram no bar. As mãos dela haviam estado trêmulas enquanto segurava o copo de bebida. Era um tremor involuntário e quase imperceptível. Ela tampouco poderia dizer a que se devia aquilo. Simplesmente tremia. Era como se de forma inconsciente houvesse percebido o futuro, do qual nesse momento se estava acercando. Ao sentir-se envolvida por aquele braço, pela primeira vez, sentiu-se segura e relaxada. Ele sentia também uma sensação de segurança ao abraçá-la, como se estivesse envolvendo algo extremamente valioso. Notava sua temperatura corporal e pela primeira vez, seu tato. Ele lhe pediu permissão para beijá-la e provaram suas bocas também pela primeira vez. Queriam conhecer o sabor do outro. Os abraços, os beijos e as carícias começaram a suceder espontaneamente, à medida que seguiam de volta ao hotel. Já quase não se falavam. Somente riam, se tocavam e se beijavam. Ao se aproximarem da porta do hotel, a última pergunta foi feita: Seguimos? Continuamos explorando nosso desejo de forma mais íntima, ou nos separamos agora? Dependendo da resposta, a história seria uma ou outra, e ainda que naquele momento não soubessem, seu futuro também (...)”. Os textos se sucedem em quantidade e intensidade inauditas. Não posso nem quero reproduzi-los, dado seu caráter íntimo, porque são as palavras de amor com as quais ambos construíram uma vida juntos. Edificaram um mundo de carícias, beijos e palavras. Passados dois anos desse primeiro encontro, eles se casaram. Lembro-me ainda da tristeza que senti por ser privada da estreita convivência que partilhava com ela. Guardo até hoje comigo uma foto que fizemos juntas dias antes de sua partida. Desde pequena, viajei muitas vezes à Espanha, para estar com eles. Em uma dessas vezes, o marido de minha avó me explicou como terminavam as histórias de final feliz contadas para as crianças, e ainda recordo a fórmula mágica, em castelhano: “y fueron felices y comieran perdices”.  Essa é a imagem que ficou deles, a de uma extrema felicidade conquistada através do exercício da vontade. Ambos escolheram o que estava ao alcance de suas mãos, como ao alcance das mãos de todos, ou seja, a felicidade.
Seu marido, além da caixa mágica, me deu a outra parte do tesouro, que consistia nas cartas que ele recebia de minha avó durante esses períodos de ausência. As duas coleções de cartas completam um quebra-cabeça de perguntas e respostas e se entrelaçam, como faziam os corpos de ambos ao se abraçarem.
O melhor legado que me deixou minha avó foi o exemplo supremo de como uma mulher chega a ser o sujeito principal de desejo de um homem e o instrumento de prazer de si mesmo.

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